Por que o Justiceiro, apesar de anti-herói, é visto por muitos agentes de segurança como “herói” e exemplo a seguir?
O Justiceiro (Frank Castle) é um dos personagens mais polarizadores da Marvel. Desde sua primeira aparição em The Amazing Spider-Man #129 (1974), ele não foi concebido como um herói tradicional, mas como um anti-herói visceral e radical: um veterano de guerra que, após o assassinato brutal de sua família, abandona o sistema de justiça para levar a cabo uma guerra pessoal contra criminosos, destruindo inimigos com violência extrema e sem respeito às leis ou qualquer procedimento institucional. Ele mata, tortura e age por vingança, ações que em qualquer contexto real seriam consideradas crimes, e não postura heróica.
Embora seja conhecido no Brasil como Justiceiro, o personagem The Punisher carrega no próprio nome original uma distinção fundamental que muitas vezes se perde na tradução. “Justiceiro” sugere alguém que promove justiça, ainda que pelas próprias mãos, evocando uma ideia moral ou até heroica de correção de injustiças. Já Punisher significa literalmente “punidor”, alguém que aplica punição. A diferença é crucial: justiça pressupõe julgamento, proporcionalidade e um sistema de valores compartilhado; punição, por si só, pode ser unilateral, movida por vingança e desprovida de mediação legal ou ética. No caso de Frank Castle, suas ações não buscam restaurar equilíbrio institucional ou defender o devido processo, mas impor castigo absoluto segundo seu próprio código. Assim, o personagem está muito mais associado à lógica da retaliação do que à ideia clássica de justiça.
O paradoxo: o Justiceiro como símbolo nas forças de segurança
Apesar dessa origem, muitos policiais e membros das forças armadas passaram a exibir o símbolo do Justiceiro — a caveira branca — em uniformes, viaturas e patches. Há registros dessa prática tanto nos Estados Unidos quanto em outras partes do mundo, especialmente entre unidades especializadas e forças tidas como “linha de frente” no combate ao crime.
Para alguns agentes, a identificação com o Justiceiro vem de uma percepção romantizada de eficiência: o personagem não negocia com criminosos, não se curva às limitações do sistema legal, e “resolve” problemas de forma direta e final. Essa leitura confunde resultado com legitimidade. Em um ambiente onde vitórias rápidas e violência são tantas vezes celebradas, a proposta de um justiceiro implacável parece, à primeira vista, inspiradora, ainda que tenha como base a renuncia das normas e da legalidade que regem justamente o trabalho desses agentes.
Essa apropriação também se insere em discursos mais amplos sobre “lei e ordem”, ideias que, em determinados meios, misturam identidade profissional com crenças autoritárias em punição e militarização do policiamento.
O oposto do que a polícia representa na teoria
Teoricamente, o papel das forças de segurança é justamente o oposto do que Frank Castle representa. Policiais e agentes públicos são legalmente obrigados a:
- obedecer e fazer cumprir a lei, seguindo procedimentos e direitos processuais;
- proteger todas as pessoas, inclusive aquelas acusadas de crime, até que a justiça decida de acordo com normas claras;
- manter a ordem social dentro de um quadro legal e institucional;
- servir como exemplo de conduta e respeito aos direitos civis.
O Justiceiro faz o contrário: atua fora da lei, sem devido processo, sem prestação de contas e recorrendo à violência extrema como principal ferramenta. Há uma contradição estrutural grotesca em um agente do Estado, que jurou defender a legalidade, adotar como símbolo alguém que repele a própria ideia de sistema jurídico e ressalta a falência das instituições de justiça.
A crítica dos criadores: “Ele não é um modelo para a polícia”
Essa contradição foi explicitamente abordada pelo co-criador do Justiceiro, Gerry Conway, em entrevistas. Conway deixou claro que o personagem é uma crítica ao sistema de justiça e uma representação de seu fracasso, e não um modelo a ser seguido por agentes do Estado. Segundo ele, o Justiceiro é um fora-da-lei, um criminoso e a adoção de sua iconografia por policiais ou militares é irônica e problemática, porque associa agentes responsáveis por manter a lei a alguém que rejeita a lei.
Conway foi ainda mais incisivo: ele considera que essa apropriação identifica a polícia com uma mentalidade de fora-da-lei, subvertendo o mandato de proteção e devido processo que lhes compete.
Marvel também abordou esse problema narrativamente. Em The Punisher #13 (2019), Frank Castle encontra policiais que exibem seu símbolo. Em vez de se sentir honrado, ele rasga o adesivo e os adverte, diferenciando claramente seu papel do deles, chegando a afirmar que, se policiais tentarem agir como ele, ele mesmo os perseguirá. Essa cena, além de crítica direta, funciona como comentário editorial da própria Marvel sobre a apropriação equivocada do personagem.
Conclusão: herói ou símbolo distorcido?
A fascinação de agentes de segurança com o Justiceiro não se baseia na compreensão do personagem dentro de sua lógica narrativa ou ética. Trata-se, muitas vezes, de uma leitura simplista que glorifica violência “efetiva” sem considerar o quadro jurídico e social em que o trabalho policial deveria se desenrolar. Isso cria um paradoxo: um símbolo de ruptura com a lei, um símbolo de fracasso do sistema de justiça passa a ser usado por aqueles que deveriam encarnar a lei e proteger a sociedade dentro de parâmetros legais e éticos claros.
Se um herói policial deve representar exemplo de conduta, esse não é o Justiceiro. A escolha de símbolos para forças de segurança deveria refletir não uma idealização de justiçamento violento, mas o compromisso com direitos humanos, responsabilidade institucional e a primazia da lei sobre a força bruta, exatamente aquilo que o Justiceiro rejeita como personagem.





