Durante muito tempo, Miles Morales foi simplesmente o Homem-Aranha. E não por acidente. Ele surgiu ocupando esse espaço após a morte de Peter Parker no Universo Ultimate, herdando o manto de forma direta, narrativa e simbólica. Desde então, esse nome o acompanhou em jogos, filmes, animações e produtos derivados. Para toda uma geração, Miles é o Homem-Aranha, sem ressalvas.
O incômodo começou quando a Marvel decidiu consolidar dois Homens-Aranha atuando simultaneamente no universo principal. A confusão nunca foi apenas editorial. Foi ideológica. Leitores mais antigos passaram a rejeitar a coexistência de dois personagens com o mesmo codinome, defendendo que Homem-Aranha é uma identidade única, quase sagrada. Para esse público, sempre existiu apenas um Aranha legítimo, e qualquer tentativa de dividir esse espaço soa como descaracterização.
Esse conservadorismo tem raízes profundas. Peter Parker é um personagem dos anos 1960, branco, estudante, trabalhador, de classe social baixa, mas que não pertence ao gueto. Ele enfrenta dificuldades econômicas, mas circula em espaços socialmente reconhecidos: universidade, empregos formais, bairros familiares ao imaginário da classe média. Essa trajetória dialoga diretamente com a memória afetiva de boa parte dos leitores mais velhos, que se veem refletidos nesse esforço individual e nessa ascensão possível. Isso gera identificação, mas também cristaliza o personagem como símbolo de uma experiência específica.
Miles Morales rompe com esse conforto. Negro, latino e pobre, ele é um representante legítimo das classes menos abastadas, marcado por uma realidade estruturalmente mais dura, onde o esforço individual não garante mobilidade e o sistema pesa mais. Essa diferença incomoda o leitor conservador e parte da geração mais velha, que conheceu apenas Peter Parker e internalizou a ideia de que apenas um personagem pode carregar o manto do Homem-Aranha. No fundo, essa resistência fala menos de quadrinhos e mais de visões de mundo distintas entre gerações.
É importante dizer: esse argumento sempre foi frágil dentro da própria lógica dos quadrinhos. O gênero sempre viveu de mantos compartilhados. Já vimos mais de um Capitão América, diferentes Mulheres-Aranha, múltiplos Flash ao longo das décadas, vários Robins ocupando o mesmo papel e uma verdadeira legião de Lanternas Verdes coexistindo sob o mesmo símbolo. O próprio Batman já foi interpretado de formas distintas, em épocas diferentes, carregando o mesmo manto e a mesma função simbólica. O nome nunca foi o problema. O que define o herói é a função que ele exerce na narrativa. Homem-Aranha é o papel social do vigilante urbano com poderes aracnídeos, lidando com responsabilidade, culpa e escolha. Miles sempre ocupou esse lugar de forma legítima.
Mesmo assim, a Marvel decidiu reorganizar o tabuleiro. Primeiro de maneira quase pedagógica, mirando o público infantil. Na animação Homem-Aranha e Seus Amigos Espetaculares, Miles passa a usar o codinome Spin. A explicação é simples: Peter adota oficialmente o nome Homem-Aranha, e Miles assume o nome do seu movimento característico para evitar confusão entre as crianças. Dois personagens com o mesmo nome no mesmo grupo dificultam a comunicação. É uma decisão funcional, não narrativa.
O que parecia restrito à animação acabou atravessando fronteiras. A surpresa veio quando o nome Spin passou a ser tratado como canônico nos quadrinhos. Em Radioactive Spider-Man #2, história ambientada em um futuro alternativo devastado por um vírus que dizimou parte da população e transformou o restante em mutantes, Miles surge com um traje amarelo e preto e atua sob o codinome Spin. Não há uma explicação clara para essa mudança. Ela simplesmente acontece, o que deixa evidente o caráter editorial da decisão.Aqui, a leitura política é inevitável. A Marvel tenta agradar leitores mais conservadores ao devolver simbolicamente o título de Homem-Aranha a Peter Parker, enquanto preserva Miles como protagonista absoluto para a nova geração. É uma solução de mercado, mas também um reflexo direto do conflito entre tradição e renovação.
Para crianças e jovens que cresceram com o Aranhaverso, Miles não precisa do nome Homem-Aranha para ser validado. Ele já é referência, já é identificação, já é representatividade concreta dentro de um gênero historicamente excludente. Sua força não está no codinome, mas no que ele simboliza: um herói que carrega no corpo e na vivência as contradições sociais que muitos leitores conhecem de perto.
A pergunta, porém, continua válida: se tantos mantos sempre foram compartilhados, por que Miles não poderia continuar sendo o Homem-Aranha? A resposta não está na coerência do universo Marvel, mas no choque entre gerações, valores e ideologias.
No fim, dá para entender a decisão editorial sem romantizá-la. Chamar Miles de Spin provavelmente vai agradar leitores conservadores e, ao mesmo tempo, manter o personagem forte entre crianças que já o conhecem assim. Mas uma coisa é inegociável: representatividade não é concessão, é conquista histórica. O nome pode mudar. O impacto, não.


