Em Miami, uma equipe tática da polícia se depara com milhões de dólares escondidos em um galpão abandonado. O que parecia apenas mais uma apreensão ligada ao tráfico rapidamente se transforma no verdadeiro motor do filme. O dinheiro não é só prova de crime, é tentação, é poder e é o estopim de um jogo psicológico onde ninguém sai ileso. A partir do momento em que a existência da fortuna se espalha, a narrativa abandona qualquer ilusão de heroísmo e mergulha na paranoia, na desconfiança e na corrosão moral dos próprios agentes da lei.
Não estamos diante de algo inovador dentro do gênero policial, mas sim de um filme que entende bem suas engrenagens. A trama funciona como um estudo sobre ganância e lealdade, colocando em choque o discurso oficial da justiça com a prática cotidiana de um sistema que se sustenta em zonas cinzentas. Quanto mais o dinheiro cresce, menor fica o espaço para princípios. A ética vira moeda fraca e a amizade passa a ser apenas mais um risco calculado.
Confesso que existe um peso afetivo aqui. Sou fã da dupla noventista Ben Affleck e Matt Damon desde Gênio Indomável (Good Will Hunting) e Procura-se Amy (Chasing Amy). Ver os dois agora em papéis mais duros, interpretando policiais de uma equipe especializada no combate ao tráfico e na apreensão de dinheiro e bens, traz uma camada extra de interesse. Ao lado deles está Steven Yeun, nosso eterno Glenn, compondo um time que opera sob pressão constante e limites morais cada vez mais borrados.
O filme acerta ao criar um clima sufocante, onde tudo parece fora do lugar e ninguém é totalmente confiável. A sensação é a de estar assistindo a uma versão adulta e cínica daquele joguinho popular entre a garotada, onde sempre existe um impostor, mas nunca fica claro quem é. A narrativa se sustenta nesse estado permanente de suspeita e no dilema central que atravessa toda a obra. Vale a pena manter a honestidade quando o sistema parece recompensar exatamente o oposto?
As atuações de Damon, Affleck e Yeun convencem e dão densidade emocional aos conflitos. O problema aparece quando o filme tenta resolver tensão com ação. As cenas de tiroteio são fracas e pouco críveis, com direito a perseguições de carro e policiais atirando com metralhadoras usando apenas uma mão enquanto dirigem, algo que quebra a imersão e enfraquece o impacto dramático.
No fim das contas, temos mais um filme policial com uma boa ideia e uma história interessante, mas mal executada em pontos decisivos. Ele prende, incomoda e mantém o espectador apreensivo, mas deixa a sensação de que poderia ir além. Para o Manifesto do Caos, fica a leitura de sempre. Quando o dinheiro entra em cena, a linha entre justiça e crime deixa de ser reta e o verdadeiro suspense não está em quem puxa o gatilho, mas em quem vai ceder primeiro.

