Will Eisner (1917–2005) não foi apenas um nome importante dos quadrinhos norte-americanos. Foi um ponto de ruptura. Um autor que ajudou a tirar a HQ do gueto do entretenimento descartável e empurrá-la para o território da literatura, do debate moral e da crítica social. Criador de The Spirit e autor de Um Contrato com Deus, Eisner abriu caminho para que a graphic novel fosse levada a sério, e isso nunca foi um gesto neutro.
Agora, ironicamente, seu legado entra na lógica fria do mercado.
O espólio de Will Eisner está oficialmente à venda, e a notícia acendeu alertas na indústria dos quadrinhos. Segundo apuração de George Gene Gustines, jornalista do The New York Times especializado em cultura pop, os direitos sobre The Spirit e uma parcela expressiva da obra do autor foram colocados em negociação. O pacote inclui um material especialmente sensível, The Spirit Returns, uma história inédita de 72 páginas produzida em 1996 e considerada a última narrativa completa do personagem escrita e desenhada por Eisner antes de sua morte, em 2005. Um trabalho que, até hoje, permaneceu fora do radar do grande público.
Não se trata apenas de um personagem clássico à venda, mas de um conjunto amplo que envolve graphic novels, livros infantis, textos teóricos sobre arte sequencial e obras que ajudaram a definir o vocabulário visual dos quadrinhos modernos. Eisner sempre foi um autor interessado em conflitos éticos, desigualdade social, violência institucional e na experimentação formal da linguagem, temas que continuam incômodos, especialmente quando confrontam estruturas de poder.
Em The Spirit Returns, isso fica explícito. A trama coloca o herói diante de um vigilante superpoderoso que atua como juiz, júri e carrasco, ecoando debates típicos dos anos 1990 sobre autoridade, justiça e violência legitimada. Eisner ainda se insere na própria narrativa, desenhando em sua mesa, num gesto metalinguístico que pode ser lido como uma crítica ao papel do autor dentro da indústria e à tensão constante entre criação artística e controle externo.
Carl e Nancy Gropper, familiares e responsáveis pelo espólio, afirmam que a decisão de vender está ligada à idade do casal, ambos na faixa dos 70 anos, e ao desejo de garantir uma administração futura estruturada para o acervo. Eles defendem que a negociação pode abrir espaço para novas leituras da obra, incluindo possíveis adaptações para cinema ou animação.
O processo está sendo conduzido pelo banco de investimentos Greif & Co., liderado por Lloyd Greif, que fez questão de comentar o fracasso do filme The Spirit (2008), dirigido por Frank Miller. Segundo ele, a adaptação ignorou a essência do personagem e resultou numa obra confusa, mais preocupada com estilo do que com substância, um exemplo clássico de como o mercado pode esvaziar o sentido original em nome de uma estética vendável.
A venda do espólio reacende um debate inevitável. O que acontece quando um legado artístico construído a partir de crítica social e inovação formal passa a ser tratado como ativo financeiro. Entre leitores, artistas e pesquisadores, as preocupações giram em torno da preservação da integridade da obra, do risco de novas adaptações diluírem seu conteúdo político e da eterna disputa entre memória cultural e exploração comercial.
No fim, a pergunta que paira não é apenas quem vai comprar Will Eisner, mas o que será feito com aquilo que ele tentou dizer.

