X-Manhunt: uma caçada ao legado de Xavier

 

A fuga de Charles Xavier coloca os mutantes diante de uma pergunta inevitável: o fundador dos X-Men ainda merece ser tratado como herói?

Enquanto os leitores brasileiros aguardam a publicação de X-Manhunt, prevista para chegar em breve ao país, o mais novo crossover mutante da Marvel já oferece uma boa amostra dos caminhos que a franquia pretende seguir após o fim da era Krakoa. E aqui no Manifesto do Caos, onde gostamos de analisar os quadrinhos para além da superfície, a saga chama atenção não apenas pela ação, mas também pelos debates que propõe sobre liderança, responsabilidade e legado.

Após os eventos de A Queda de Krakoa, Charles Xavier encontra-se preso na instalação de segurança máxima Greymalkin. Quando recebe um pedido desesperado de socorro de sua filha, Xandra, o fundador dos X-Men decide fugir do confinamento para ajudá-la. O problema é que o mundo mutante já não enxerga Xavier da mesma forma. As decisões tomadas durante os últimos anos deixaram cicatrizes profundas, e antigos aliados agora se dividem entre aqueles que ainda acreditam em seu antigo mentor e aqueles que o consideram responsável por boa parte das tragédias recentes.

Essa divisão é justamente um dos pontos mais interessantes da história. Em vez de apresentar respostas fáceis, X-Manhunt coloca em discussão o legado de Xavier e permite diferentes interpretações sobre suas ações. Dependendo da leitura que cada fã faz do personagem, é possível torcer tanto por sua fuga quanto por sua captura.

Uma das maiores qualidades da saga é sua função de ponte entre a era Krakoa e o futuro dos mutantes. Existem diversas questões que permaneceram em aberto após o encerramento daquela fase, e o crossover procura preencher algumas dessas lacunas enquanto apresenta o atual cenário dos X-Men. A história atravessa praticamente todos os títulos mutantes da linha editorial, e o resultado poderia facilmente ter sido uma colcha de retalhos desconexa. Felizmente, acontece exatamente o contrário.

O trabalho coletivo realizado pelos roteiristas é impressionante. Gail Simone, Jed MacKay, Jackson Lanzing, Collin Kelly, Murewa Ayodele, Mark Russell, Eve L. Ewing e Geoffrey Thorne conseguem fazer a trama avançar sem sacrificar a identidade de suas respectivas séries. Cada capítulo mantém o tom e as características de seu título de origem, algo cada vez mais raro em grandes eventos editoriais.

Entre os destaques da história está a atual equipe dos X-Men liderada por Ciclope. Essa formação vem se consolidando como uma das mais interessantes dos últimos anos. Sob o comando daquele que continua sendo, na minha opinião, o maior estrategista da história mutante, a equipe reúne alguns dos personagens mais poderosos da franquia.

Psylocke e Tempera trazem habilidade e eficiência em combate, Kid Ômega demonstra por que é considerado um dos telepatas mais poderosos de sua geração, inclusive protagonizando um confronto memorável contra o próprio Xavier, enquanto Magia e Fanático formam a principal linha de frente da equipe. A combinação entre os poderes místicos de Illyana Rasputina e a força brutal praticamente imparável de Fanático cria alguns dos momentos mais divertidos da revista.

Além da eficiência em combate, a dupla desenvolve uma amizade inesperada que rende boas interações ao longo da fase. Em meio à tensão constante das histórias mutantes, os diálogos entre Magia e Fanático ajudam a trazer momentos de humor e leveza, sem que os personagens percam sua imponência quando a situação exige. É justamente esse equilíbrio entre poder, personalidade e dinâmica de grupo que faz desta encarnação dos X-Men uma das formações mais interessantes da atualidade.

Outro personagem que rouba a cena é Tempestade. Se durante décadas Ororo Monroe foi apresentada como uma das mutantes mais poderosas do planeta, a fase atual parece determinada a elevar ainda mais seu status. A personagem assume definitivamente uma dimensão quase mitológica. A antiga líder dos X-Men continua ali, mas agora envolta em uma aura que a aproxima muito mais de uma divindade do que de uma simples super-heroína. Sua participação em X-Manhunt reforça essa evolução e entrega alguns dos momentos mais impressionantes da saga.

A leitura também desperta uma sensação nostálgica. Em muitos momentos, X-Manhunt lembra os grandes crossovers dos anos 1990, período em que muitos leitores, inclusive eu, começaram a acompanhar os mutantes. Existe aquele sentimento clássico de grande evento, com equipes diferentes se encontrando, alianças improváveis sendo formadas e personagens espalhados pelo universo mutante convergindo para uma mesma trama.

Visualmente, a qualidade se mantém alta durante toda a leitura. Não há nenhum artista que destoe negativamente do conjunto, algo admirável para um crossover dessa dimensão. Entre todos os envolvidos, porém, o trabalho de Netho Diaz merece destaque especial. Seus desenhos possuem energia, dinamismo e senso de espetáculo, características fundamentais para uma história desse porte. Para mim, ele vem realizando um dos melhores trabalhos da linha mutante atual.

Apesar das qualidades, o desfecho não me convenceu completamente. Durante boa parte da narrativa, os autores constroem um debate interessante sobre as responsabilidades e os erros de Xavier. No entanto, a reta final parece optar por um caminho mais seguro, suavizando algumas das consequências de suas ações e sugerindo uma espécie de redenção que me parece menos interessante do que as questões levantadas anteriormente. Também há um acontecimento envolvendo Ciclope próximo ao encerramento que soa desnecessário e pouco acrescenta à narrativa.

Ainda assim, X-Manhunt cumpre seu papel. É um crossover divertido, bem construído e importante para compreender o momento atual dos X-Men. Talvez não esteja destinado a ocupar um lugar entre as histórias mais memoráveis da franquia, mas oferece ótimos confrontos, bons debates sobre o legado de Xavier e um retrato bastante interessante do universo mutante pós-Krakoa.

Para os leitores brasileiros, vale a pena ficar de olho quando a saga finalmente chegar às bancas e livrarias do país. Mais do que um simples evento editorial, X-Manhunt funciona como um retrato de uma franquia que ainda busca se redefinir após o fim de uma de suas fases mais ambiciosas. E, nesse processo, nos lembra que o maior desafio dos X-Men nunca foi derrotar Sentinelas, alienígenas ou supervilões, mas lidar com as consequências de suas próprias escolhas.

Veredito do Manifesto do Caos

X-Manhunt talvez não seja o grande clássico que definirá a era pós-Krakoa, mas cumpre com competência a missão de reposicionar os principais personagens mutantes para o futuro da franquia. Ao mesmo tempo em que entrega ação, grandes confrontos e momentos visualmente impactantes, a saga também convida o leitor a refletir sobre o legado de Charles Xavier e as consequências de décadas de decisões tomadas em nome de um sonho que nem sempre beneficiou aqueles que pretendia proteger.

O maior mérito da obra está justamente em sua capacidade de reunir diferentes títulos, equipes criativas e visões sobre os mutantes sem perder a coesão. O resultado é um crossover que funciona tanto como capítulo importante da cronologia dos X-Men quanto como uma vitrine eficiente para a atual fase editorial da Marvel.

Ficha Técnica

Título: X-Manhunt
Editora: Marvel Comics
Publicação original: 2025
Roteiro: Gail Simone, Jed MacKay, Jackson Lanzing, Collin Kelly, Murewa Ayodele, Mark Russell, Eve L. Ewing e Geoffrey Thorne
Arte: Netho Diaz, Luciano Vecchio, Bob Quinn e outros
Status no Brasil: Ainda inédita, com publicação aguardada em breve.

Nota do Manifesto do Caos

7/10

Uma saga divertida, bem construída e importante para entender o novo momento dos X-Men. Não alcança o nível dos grandes clássicos da franquia, mas entrega ótimos personagens, bons conflitos e um retrato consistente do universo mutante pós-Krakoa.

 
 

 

 

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