Depois que um míssil derruba o Quinjet de Ciclope, Scott Summers se vê em uma situação para a qual nem mesmo seu treinamento com os X-Men poderia prepará-lo. No impacto, seu visor é destruído, deixando-o praticamente cego e sem controle sobre suas devastadoras rajadas ópticas.
O ataque foi realizado pelos Carniceiros, os brutais ciborgues comandados por Donald Pierce. Eles estão atrás de uma jovem mutante escravizada por Pierce que conseguiu escapar. Ferido, desorientado e separado dos companheiros, Scott precisa sobreviver sem seu visor e sem a própria visão, contando apenas com seu treinamento, inteligência e capacidade estratégica.
Desta vez, Ciclope não está lutando ao lado dos X-Men. Está lutando para sobreviver.
Expectativa: essa droga perigosa
Como sempre digo: a expectativa é uma droga.
Antes da leitura, havia visto elogios e boas avaliações sobre a história. Isso criou a expectativa de encontrar uma grande aventura de Ciclope. E talvez esse tenha sido o problema.
A HQ não é ruim, mas está longe de ser uma história marcante do líder dos X-Men. Alex Paknadel entende bem o personagem e apresenta um Scott corajoso, determinado, inteligente e estrategista. O problema está na forma como alguns conflitos são resolvidos. Em diversas situações, o roteiro parece facilitar demais a vida do protagonista, retirando parte da tensão que uma história de sobrevivência deveria construir.
Ainda assim, existem bons momentos. Scott demonstra claramente que deixou para trás o jovem inseguro dos primeiros anos. Aqui temos um líder consolidado, capaz de tomar decisões sozinho e confiar no próprio treinamento.
O problema é que essa boa caracterização nem sempre vem acompanhada de um roteiro à altura.
Carniceiros pouco ameaçadores
Os Carniceiros são antagonistas que considero particularmente interessantes dentro do universo mutante: ciborgues deformados, violentos e perturbados, convencidos de sua superioridade e movidos por um ódio quase patológico aos mutantes.
Aqui, porém, eles não convencem.
Em vários momentos, suas decisões parecem excessivamente convenientes para Scott. O protagonista percebe rapidamente suas fraquezas e utiliza a estupidez e a ganância de alguns deles para sobreviver. O resultado é uma ameaça que deveria ser assustadora, mas acaba diminuída pelo próprio roteiro.
Rogê Antônio salva a experiência
Se o roteiro me decepcionou em alguns momentos, a arte do brasileiro Rogê Antônio compensou boa parte disso.
É exatamente o tipo de desenho que gosto de encontrar nos quadrinhos. Rogê trabalha muito bem com ângulos, perspectivas e composição, criando páginas dinâmicas e uma narrativa visual bastante fluida. As cenas de ação possuem movimento e os enquadramentos ajudam a conduzir o leitor pela história.
Sua arte não apenas ilustra o roteiro: ela contribui para contar a história.
Existe também uma beleza nos personagens e nos cenários que equilibra a violência da trama. Em determinados momentos, o trabalho visual é justamente o que mantém o interesse pela leitura.
Se o roteiro não entregou tudo o que eu esperava, Rogê Antônio compensou visualmente.
Uma história mediana
No fim, Ciclope é uma história competente, mas que não alcança o potencial de sua premissa. A ideia de colocar um dos maiores estrategistas dos X-Men praticamente cego, isolado e perseguido pelos Carniceiros poderia render uma excelente história de sobrevivência.
Há bons momentos e uma caracterização sólida do protagonista, mas o roteiro facilita demais alguns conflitos e não consegue transformar os Carniceiros em uma ameaça realmente convincente.
Por outro lado, a arte de Rogê Antônio eleva bastante a experiência e dá personalidade à narrativa.
Não é uma leitura ruim. Só não é a grande história de Ciclope que eu esperava encontrar.

