Tropa de Elite: quando a crítica ao autoritarismo virou licença para a violência


Como um filme que se dizia denúncia acabou legitimando a violência de Estado e o imaginário autoritário no Brasil

Quando lançado em 2007, Tropa de Elite foi um sucesso imediato. Público alto, repercussão massiva, frases repetidas à exaustão, debates inflamados. O filme parecia ter tocado em uma ferida aberta da sociedade brasileira: a violência urbana, a corrupção policial, a falência do Estado e a hipocrisia da classe média. Mas o tempo revelou algo ainda mais perturbador. Aquilo que se apresentava como crítica ao autoritarismo passou a ser consumido, dentro e fora das telas, como uma ode à violência, à exceção e à suspensão da lei.

Quase duas décadas depois, a pergunta já não é se o filme é polêmico. A pergunta é por que ele foi entendido como manual, e não como denúncia.

A fantasia do policial que resolve

Tropa de Elite constrói seu eixo narrativo em torno de um personagem exausto. Capitão Nascimento está cansado do Judiciário, da corregedoria, da imprensa, dos direitos humanos e da política. Esse cansaço é real e reconhecível, especialmente dentro das forças de segurança. O problema é que o filme não trata essa exaustão como sintoma de um sistema falido, mas como justificativa moral para romper qualquer limite.

Nascimento não é punido por torturar, matar ou ignorar procedimentos. Ele é recompensado. Resolve o problema, elimina o inimigo e mantém a ordem. A mensagem que se impõe não é ambígua: quando a lei atrapalha, a violência funciona. A crítica se perde porque não há consequência ética ou institucional para o abuso. Sem consequência, não há denúncia. Há legitimação.

Estética que ensina

O cinema não é neutro. Linguagem, ritmo, enquadramento e trilha constroem sentido. Tropa de Elite não apenas mostra violência, ele convida o espectador a vibrar com ela. A câmera acompanha a ação como se estivesse em combate. O treinamento é filmado como rito de passagem heroico. O inimigo é desumanizado. O resultado é uma estética de guerra aplicada a um problema social.

Essa estética dialoga diretamente com a formação militarizada das polícias brasileiras. Dentro das forças de segurança, o BOPE deixa de ser exceção narrativa e passa a ser ideal institucional. O filme não provoca distanciamento crítico. Ele reforça o imaginário já existente e o organiza simbolicamente.

Por isso a recepção interna não foi de incômodo, mas de identificação.

O mito de que o público “entendeu errado”

É comum afirmar que o público interpretou o filme de forma equivocada. Essa explicação transfere a responsabilidade da obra para quem a assiste. Mas quando milhões de pessoas chegam à mesma leitura, o problema não é de compreensão individual. É de construção narrativa.

Tropa de Elite ensina, mesmo sem declarar:

  • que a violência resolve,
  • que direitos atrapalham,
  • que o inimigo não é cidadão,
  • e que a exceção é necessária.

Essas ideias encontram terreno fértil em uma sociedade marcada por desigualdade, racismo estrutural e cultura punitivista. O filme não cria esse contexto. Ele o valida.

Da tela ao palanque

A política percebeu rapidamente o potencial simbólico da obra. Bordões, postura, estética e discurso migraram do cinema para campanhas eleitorais. O “homem que resolve”, o gestor violento, o líder que despreza mediações democráticas passa a ser vendido como solução.

Nesse ponto, Tropa de Elite deixa de ser apenas cinema e se transforma em capital político. A violência, antes apresentada como falha do Estado, passa a ser defendida como virtude. A brutalidade vira sinônimo de eficiência. O autoritarismo se fantasia de pragmatismo.

Um espelho que agradou demais

O maior problema de Tropa de Elite talvez seja que ele funciona como espelho. E muitos gostaram do que viram. Não porque o filme esteja certo, mas porque ele confirma um desejo social profundo: o desejo de agir sem limites, sem controle externo, sem prestação de contas.

Quando uma obra que se diz crítica é celebrada justamente por quem deveria se sentir questionado, algo falhou. Quando a sátira vira manual, é porque o objeto satirizado já perdeu a capacidade de se reconhecer como problema.

O que o filme nos revela hoje

Rever Tropa de Elite hoje não é um exercício de nostalgia. É um exercício histórico e político. O filme não explica sozinho o avanço do autoritarismo no Brasil, mas ajuda a entender como ele foi normalizado culturalmente.

Ele não criou a violência policial. Mas ajudou a justificá-la. Não inventou o discurso punitivista. Mas deu forma, estética e narrativa a ele. E, ao fazer isso sem romper com a lógica que dizia criticar, acabou reforçando exatamente aquilo que pretendia denunciar.

Talvez a lição mais dura seja essa: não se critica o autoritarismo usando o prazer, a linguagem e a estética do próprio autoritarismo sem pagar um preço alto. E o preço, no Brasil, foi cobrado fora das telas.

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